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•6 min de leitura•Por Team Wanderer

Dança extática (ecstatic dance): o que é, como funciona e as regras

O que é a dança extática, como decorre uma sessão de ecstatic dance, as regras do silêncio e do consentimento, e como encontrar uma em Portugal.

Dança extática (ecstatic dance): o que é, como funciona e as regras

A dança extática é uma pista de dança sem álcool, sem conversa e sem ninguém a olhar para ti. Parece uma contradição, e de facto é a prática holística que gera mais desconfiança antes e mais entusiasmo depois.

Quem vai descreve-a quase sempre da mesma forma: a primeira meia hora é constrangedora, depois acontece qualquer coisa.

O que é a dança extática

A ecstatic dance é um espaço de movimento livre guiado pela música, sem passos para aprender, sem coreografia, sem par obrigatório e sem julgamento. Um DJ constrói um percurso musical de cerca de duas horas e os participantes movem-se como querem.

Não é dançaterapia, não é uma aula, não é uma noite na discoteca. É um formato próprio, nascido entre os Estados Unidos e a Europa nas últimas décadas e hoje presente em várias cidades portuguesas.

O "extática" do nome não promete êxtase. Remete para a ideia de sair temporariamente do controlo da mente racional, o que às vezes acontece e às vezes não.

As regras do círculo

É isto que torna a dança extática diferente de qualquer outro contexto de dança. As regras variam ligeiramente de coletivo para coletivo, mas o núcleo é quase sempre este.

Não se fala

Na pista fica-se em silêncio. Nada de conversas, comentários ou apresentações. É a regra que mais desconcerta no início e a que faz funcionar tudo o resto: sem palavras não há conversa social para gerir, logo não há ninguém para impressionar.

Normalmente existe uma zona à parte onde quem quiser pode falar.

Nem álcool nem substâncias

As sessões são sóbrias. Não é moralismo: o objetivo é que o estado alterado, se vier, venha do movimento e da música.

Sem sapatos

Dança-se descalço ou de meias. Ajuda o contacto com o chão e reduz o ruído.

Sem telemóveis nem fotografias

Ninguém filma. É a condição para que as pessoas se permitam mover de formas que noutro lugar não se permitiriam.

O consentimento é explícito

Podes entrar em contacto e dançar com outras pessoas, mas o convite é oferecido e pode ser recusado sem explicações. O gesto habitual para recusar é levar as mãos ao coração e fazer um aceno: significa "obrigado, não", e não é preciso mais nada. Ninguém deve insistir.

Se numa sessão de dança extática alguém não aceita o teu "não", esse coletivo tem um problema de condução, e não és tu que tens um problema de rigidez.

Como decorre uma sessão

A abertura

Senta-se toda a gente em círculo. Quem conduz relembra as regras, propõe alguns minutos de centramento ou de respiração e, por vezes, uma breve ronda de intenções. Dura pouco.

O aquecimento

A música começa lenta e baixa. Muitos ficam no chão, espreguiçam-se, mal se mexem. É aqui que se concentra o constrangimento, e é normal: não estás a fazer nada de errado, estás só a atravessar a parte desconfortável.

A subida

O ritmo cresce. A pista enche-se, a energia sobe e a certa altura percebes que deixaste de te perguntar como pareces. É a parte central, normalmente a mais longa.

O pico

O momento mais intenso e rápido. Alguns dançam no máximo, outros param nas margens. Ambas as coisas são legítimas.

A descida

A música abranda progressivamente até ao silêncio. Muitos acabam deitados no chão.

O fecho

Há muitas vezes um círculo final, por vezes com partilha facultativa. Depois já se pode falar.

Uma sessão dura em geral entre duas e três horas. O contributo pedido é normalmente comparável ao de uma entrada num evento cultural à noite, com variações entre cidades e coletivos.

O que esperar realmente

Que o início seja constrangedor. Praticamente toda a gente o diz. Não é sinal de que o sítio não é para ti.

Que ninguém esteja a olhar para ti. É a observação mais frequente de quem volta: a sensação de estar a ser observado desaparece quando percebes que todos os outros estão absorvidos em si próprios.

Que possam surgir emoções. Choro, raiva, euforia súbita, melancolia. O movimento prolongado sem controlo mental traz à superfície material inesperado. É comum e não é um problema.

Que possas não sentir nada de especial. Acontece. Nem todas as sessões são uma experiência transformadora, e está tudo bem.

Que és livre de parar. Sentares-te nas margens durante vinte minutos é uma escolha legítima, não uma desistência.

Quem deve ter cuidado

É uma prática de baixo risco, mas convém ter alguns cuidados:

  • Problemas articulares ou cardiovasculares: são duas ou três horas de atividade física, por vezes intensa. Doseia o esforço e para quando precisares.
  • Hipersensibilidade a sons fortes: o volume na fase de pico é alto. Pergunta antes ou leva tampões.
  • Fragilidade emocional aguda: se estás a atravessar um período muito difícil, pondera ir acompanhado ou escolher uma sessão mais pequena.
  • Hidratação: transpira-se muito mais do que se espera. Leva água.

Não há contraindicações absolutas para a maioria das pessoas, mas, como em qualquer prática intensa, aplica-se o princípio geral que encontras no guia sobre cerimónias espirituais com segurança.

Como encontrar uma sessão séria

O sinal mais fiável é a forma como as regras são tratadas. Um coletivo sério enuncia-as no início, sempre, mesmo que só estejam presentes habitués. Se as regras são dadas como adquiridas ou apresentadas como uma formalidade, a qualidade do espaço ressente-se.

Outros elementos a observar:

  • A dimensão. Sessões muito cheias perdem a qualidade íntima do formato.
  • A presença de pessoas de referência que cuidam do espaço, não apenas do DJ.
  • A sobriedade aplicada a sério, e não só escrita na descrição.
  • A regularidade. Um coletivo que se reúne todas as semanas ou todos os meses construiu uma cultura própria; uma sessão pontual muitas vezes não.

Para perceberes o que existe na tua zona, o guia de eventos holísticos perto de mim percorre as principais cidades portuguesas.

Perguntas frequentes

Tenho de saber dançar?

Não, e esse é literalmente o objetivo. Não há passos, não há técnica, não há certo nem errado. Caminhar devagar durante duas horas é uma forma válida de participar.

Posso ir sozinho?

Sim, e a maioria das pessoas vai. A regra do silêncio elimina a parte mais difícil de ir sozinho a um evento: não tens de falar com ninguém.

Que música se ouve?

Muito variada: eletrónica, músicas do mundo, ritmos tribais, peças acústicas, muitas vezes sem letras em línguas que os participantes compreendam, precisamente para não ativar a mente verbal.

Como me visto?

Confortável, por camadas, com algo que te deixe mover livremente. Transpira-se: leva uma t-shirt de muda.

É uma prática religiosa ou espiritual?

Não está ligada a nenhuma religião. Alguns coletivos dão-lhe um enquadramento espiritual explícito, outros apresentam-na como pura prática de movimento. Vê a descrição da sessão.

E se quiser ir embora a meio?

Podes fazê-lo a qualquer momento, sem explicações. Ninguém te vai impedir.

Há contacto físico?

Só se ambas as pessoas quiserem, e sempre de forma não sexual. O contacto é uma opção, nunca uma expectativa.

Conclusão

A dança extática pede muito pouco (nem experiência, nem material, nem nada para dizer) e devolve algo difícil de obter noutro lado: duas horas em que o corpo decide e a cabeça fica calada.

O único conselho útil é dar uma oportunidade à primeira meia hora constrangedora, porque é a portagem a pagar. Encontra uma sessão de dança extática entre os eventos da Wanderer ou, se não houver nenhuma na tua zona, organiza-a tu.

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